A dupla jornada de trabalho realizada pelos motoristas de ônibus pode ser uma das causas de tantos acidentes que envolvem os coletivos em São Paulo. De acordo com Nailton de Souza, diretor do Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores em Transporte Rodoviário Urbano de São Paulo, é comum trabalhadores da área fazerem horas extras.
Para Souza, é inegável que houve aumento no número de acidentes com ônibus, mas ele diz que as ocorrências estão relacionadas com o aumento da frota na cidade. Segundo o diretor do sindicato, em média, acontecem cerca de 20 acidentes por dia (considerando os pequenos). Na avaliação dele, porém, o desgaste dos motoristas é o que leva a um número maior de ocorrências.
- A gente costuma brincar até que, enquanto tiver óleo diesel no tanque, esse carro fica rodando na cidade com o mesmo motorista e cobrador.
O diretor da Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego), Dirceu Rodrigues Alves Jr, concorda que o estresse e o desgaste levam a um número maior de acidentes.
- Muitos fazem jornadas duplas de trabalho. Isso reduz a sobrecarga de custos para a empresa. Ela [empresa] tem um só profissional e só paga as horas extras. Nós recomendamos que esse trabalho não possa ser maior do que seis horas. Esse trabalho é desgastante, ele [motorista] é submetido a muitos fatores de risco.
Mas não é só o excesso de trabalho que resulta no alto número de acidentes. De acordo com Alves Jr., os motoristas de coletivo passam diariamente por estresse mental – que é o medo de ser agredido e de ser assaltado – e também o estresse social, que é o fato de eles ficarem isolados, passarem muitas horas longe da família e fora de casa.
- Nosso motorista não tem treinamento específico na função dele. Ele precisa de treinamento constante porque o ônibus é pesado e transita entre pequenos veículos. Além disso, [o ônibus] circula entre pessoas e com pessoas dentro. E, nesse desgaste, se ele não estiver bem treinado, esses acidentes podem acontecer.
Ciclistas participam de “pedalada pelada” na Paulista
Uma das últimas ocorrências grandes que envolveram coletivos e que geraram muito protesto foi o atropelamento de uma ciclista, que morreu na avenida Paulista, próximo à rua Pamplona. Segundo o professor de engenharia de tráfego da Unicamp (Universidade de Campinas) Percival Bisca, a falta de planejamento aumenta os acidentes.
- A bicicleta misturada com o trânsito é algo muito complicado, tanto que pouquíssimos se aventuram a andar de bicicleta no meio dos carros. A avenida Paulista particularmente tem calçadas muito largas, seria possível reservar um pouco dela para fazer uma ciclofaixa. Ainda assim, não seria simples porque o ciclista se misturaria com o pedestre.
O diretor do sindicatos dos motoristas reclama ainda dos corredores destinados à circulação de coletivos.
- Os corredores de ônibus estão mal conservados. Além disso, a fiscalização é ineficiente. Apesar da lei liberar o corredor para táxis com passageiros, às vezes eles vão sem passageiros ou com um amigo ou estão indo para o ponto de origem. Motos também invadem o corredor.
O R7 procurou o SETPESP (Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado de São Paulo), mas não conseguiu contato até o fechamento da matéria.
http://noticias.r7.com/sao-paulo/noticias/excesso-de-trabalho-e-causa-de-acidentes-com-motoristas-de-onibus-em-sp-diz-associacao-20120312.html