O Diário traz neste domingo (12) a entrevista do Presidente do Stiam (Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Alimentação de Marília), Wilson Vidoto Manzon, 59.
Formado em direito e especialista em direito do trabalho, ele ocupa o cargo há 20 anos. Manzon está no quinto mandato.
Ele é casado com Elaine Cristina Marconato Manzon e tem quatro filhos.
Durante a entrevista, ele fala sobre os desafios a frente da entidade, o relacionamento com os empresários, as conquistas e reivindicações da categoria.
O presidente também destaca a falta de gerenciamento da questão dos acidentes de trabalho nas indústrias. Além de falar sobre os prejuízos causados no setor alimentício por conta da queda nas exportações.
Em resumo qual tem sido seu trabalho a frente do sindicato?
Nós assumimos o sindicato em 1987 numa época em que existia uma discriminação muito grande entre homens e mulheres. O público feminino que exercia a mesma função dos homens não tinha o mesmo salário. Também não havia nas empresas plano de saúde, restaurante, cesta básica, distribuição de lucro e as horas extras eram pagas por fora. Além disso, existiam demissões sem fundamento, mulheres que casavam ou ficavam grávidas e eram dispensadas.
Então existia uma série de coisas que nós não aceitávamos. O Sindicato na realidade foi fundado em 1957. Já em 1969 a instituição foi cassada. Com isso todos os bens e diretores do sindicato sumiram.
Em 31 de março de 1980 no dia da revolução nós fundamos o Sindicato novamente. Tivemos a primeira diretoria presidida por Rodrigo Santino da Silva, já falecido. Mas em função de não conhecer o pessoal ele não andava muito. Neste período nós fizemos uma chapa de oposição e ganhamos a eleição.
Apresentamos um projeto no qual planejamos colocar os restaurantes nas fábricas, equiparar os salários entre homens e mulheres, fazer com que toda a nossa organização fosse respeitada pela administração, questão do plano de carreiras, área de lazer, casas populares para os trabalhadores, ou seja, muitas coisas que não existiam anteriormente.
Atualmente nós temos também colônia de férias, clube de campo, sede própria, sete veículos para atender nosso município e região composta por 32 cidades e 432 empresas.
Faça um balanço do ano de 2011 para o Sindicato?
Em termos salariais tivemos uma recuperação boa, conseguimos cestas básicas, assim praticamente 100% dos trabalhadores têm o benefício. Também foi conquistado o plano de saúde para alguns setores, atingindo 60% do setor. Para algumas categorias conseguimos ainda a PRL (Participação nos Lucros e Resultados).
Outra benfeitoria é que 30% das empresas possuem restaurante.
Em resumo o ano passado foi bom em termos de reajuste, mas no quesito de demissões o número foi elevado.
O que gostaria de destacar na sua presidência?
Em termos sociais, por exemplo, nós tivemos a questão da implantação dos restaurantes e manutenção da concessão das cestas básicas (30 quilos de alimentos), já que não adianta tratar bem o funcionário dentro da empresa e ele trabalhar preocupado com a falta de alimento dentro de sua casa. Estes foram dois pontos sociais que nós conseguimos que eu acredito que sejam de extrema validade. Foi algo conquistado com greves, mobilizações e muito sacrifício fazendo o empresário entender a necessidade disso. Outra benfeitoria é o plano de saúde. Em terceiro lugar destaco a confiança adquirida pelos trabalhadores, já que na ocasião em que assumimos não tínhamos nada a não ser uma bicicleta, hoje temos uma estrutura sindical real para atendimento. Em termos de sindicato de cidades é uma das melhores do Brasil.
Tem pretensão de reeleição?
Temos até 2015 para pensar, quando termina o mandato. Na minha ideia está montar uma equipe de trabalho para manter um quadro de dirigentes sindicais que não chegue com pretensão de se beneficiar da entidade.
É difícil conseguir dirigentes sindicais porque ele precisa ter no sangue a vontade de fazer algo pelos outros, além de que demanda muita dedicação. As vezes são 16 horas de trabalho entre reuniões nas fábricas da cidade e região.
Ser presidente não é sentar na cadeira e dizer que vai administrar, na verdade tem que estar presente sempre para saber as dificuldades que o trabalhador enfrenta.
Nestes 20 anos já passaram pelo sindicato mais de 100 trabalhadores, destes nós temos praticamente 40 diretores novos. Então temos algumas pessoas em vista com esta vontade.
Hoje os jovens que entram para trabalhar numa empresa já têm tudo pronto, não sabem o valor de tudo que foi construído ao longo do tempo pelo sindicato. Hoje a carga horária de trabalho é regrada.
Então as nossas conquistas em termos de facilidades e ganhos para o trabalhador foram muito grandes.
O salário médio de um funcionário do setor da alimentação hoje chega a R$ 1.200, entre custo, salário e benefício. Então são estas as coisas que o pessoal às vezes não percebe. Antigamente uma pessoa trabalhava numa fábrica e nem era registrado.
É interessante analisar os progressos conquistados.
O que esperamos é poder deixar sementes para germinar bons frutos.
Com relação ao déficit negativo na balança comercial que refletem nas demissões? O que o Sindicato tem feito para que os resultados não sejam tão negativos?
Nós estamos passando por uma crise mundial. Em muitos países o crescimento paralisou.
O principal problema no Brasil é que nosso produto tem muito imposto para o país importador, então se torna caro lá fora, desta forma as exportações caem.
É lógico que para nós isto é prejudicial. Temos conversado muito com representantes do governo para tentar diminuir a carga tributária. Por enquanto conseguimos que o governo concedesse queda no valor dos impostos da carne.
Outra questão de exportação que pesa no nosso custo. Um dos problemas é que a mão de obra ainda não é tão qualificada. Aí vem o problema de cultura, por exemplo, no Canadá, Estados Unidos e Itália eles trabalham muito rápido, como máquinas, aqui nós somos mais alegres, enfim, é diferente.
A questão da rotatividade da mão de obra fica cara, então nós perdemos em alguns produtos a competitividade no exterior.
Então com mais importação e menos exportações no setor como de biscoitos gera as demissões.
Com relação aos acidentes de trabalho? O número tem diminuído? Como são feitas as fiscalizações?
As empresas são obrigadas a enviar para nós a CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho), muitas não cumprem esta legislação.
Então nós estamos criando no sindicato a Secretaria da Segurança de Atendimento ao Trabalhador. Deste modo teremos o controle e pessoas especializadas para buscar os acidentes de trabalho. Para isso nós necessitamos que os postos de saúde no instante em que chegar um trabalhador ferido mande para nós a comunicação. Hoje os dados são enviados para o Ceresp que não encaminha para nós. Então eu não sei dizer quantos acidentes ocorreram. Eu não tenho esta exatidão.
Então falta uma parceria com a Secretaria de Saúde porque você vai conseguir diminuir a despesa hospitalar. Além de que se tivéssemos estas estatísticas conseguiríamos articular estratégias para diminuir determinado tipo de acidente.
Então este é um dos pontos que nós estamos criando no sindicato para poder justamente atender este setor.
Quantos funcionários são sindicalizados? Qual a relação com o Sindicato? O que a entidade oferece?
Nós temos na nossa região hoje 7.500 funcionários, destes dois mil são associados.
Os funcionários participam de reuniões e festas de confraternização. Além de interagir no clube de campo. Nas ocasiões em que vamos para Brasília em busca de alguma reivindicação fretamos ônibus com os funcionários. Só não levamos mais porque fica muito alto o custo.
Na área da saúde temos a unidade móvel odontológica, além de uma clínica aqui no sindicato. No setor de lazer e entretenimento temos também uma colônia de férias na Praia Grande, um clube recreativo na cidade com salão de festas e campo de futebol.
Nós também temos dois advogados disponíveis. Além de eventos em datas comemorativas.
Qual a relação com o setor patronal? Há algo que pode ser melhorado?
Atualmente nós temos empresas conscientes da importância do sindicato e da indústria, um completa o outro. Então existe muita parceria para poder qualificar e melhorar a condição de vida dos trabalhadores.
Enfim, nosso relacionamento com o setor empresarial é satisfatório. Tanto é que nas maiores empresas da cidade no Carnaval não se vai trabalhar. Na sexta-feira Santa também conseguimos que as folgas fossem concedidas. Então nos feriados prolongados temos feito acordos para dar um descanso maior para o empregado.
Como está a questão da qualificação profissional?
Das 400 empresas temos 10% que são consideradas grandes e médias. Destas 100% são qualificadas. Já nas empresas menores é mais difícil porque às vezes não há interesse do empregado em se qualificar, os que se capacitam vão para as grandes mais tarde. Então as pequenas empresas são laboratórios para as maiores.
O que estamos fazendo é uma parceria com a Secretaria de Emprego e Relações do Trabalho que consiste em levantar com o empresário o que eles precisam para implantar determinada qualificação na cidade.
Por outro lado temos em Marília hoje mais de 200 menores aprendizes, estudantes das escolas técnicas, dentro das fábricas de Marília.
Entre a questão salarial e outros benefícios quais são as maiores reivindicações da categoria?
A maior reivindicação hoje é em cima da PLR. Nós temos 5% das indústrias que distribuem a Participação dos Lucros e Resultados. Nossa meta é tentar fazer com que isso seja estendido para todos os trabalhadores. Só que não é regulamentado na constituição. Esta lei é complicada porque não dá poder para o sindicato discutir, as empresas também montam suas próprias comissões para não conceder esta participação.
Tanto é que neste ano estamos colocando na nossa proposta salarial para todas as empresas que tenham PLR ou não o sindicato é que vai assumir a campanha. Não vamos deixar mais para as comissões de fábrica discutir este assunto.
Quais as perspectivas do sindicato para 2012?
Infelizmente temos em vista uma grande crise européia e isto pode afetar a produção e consequentemente as exportações do país e da nossa cidade.
Outro problema também é o endividamento interno das pessoas, então isto faz com que o consumo diminua bastante.
Nós temos procurado discutir com o Governo metas. Temos nos próximos dias um seminário em que nós vamos discutir a nacionalização dos bens de produção. Também vamos organizar uma marcha pela desindustrialização que ocorre com empresas estrangeiras assumindo espaços no Brasil.
http://www.diariodemarilia.com.br/Noticias/107949/Vidoto-fala-em-descontrole-nos-acidentes-de-trabalho