| Fábio Matavelli |
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| Setor de serviços – que inclui a construção civil – responde por 47% dos acidentes de trabalho |
O número de mortes em acidentes de trabalho na região dos Campos Gerais é considerado alto por especialistas. De janeiro a julho, o Instituto Médico Legal (IML) de Ponta Grossa contabilizou 13 óbitos. No ano passado, no mesmo período, aconteceram 12 mortes. Na última quarta-feira, um homem morreu dentro de uma metalúrgica no Jardim Los Angeles, aumentando para 14 a quantidade de acidentes fatais em 2012, até agora. Amarildo da Silva, 36 anos, fazia serviço de pintura quando uma bobina desprendeu-se e caiu sobre o trabalhador.
Segundo o professor Carlos Luciano Sant’Ana Vargas, coordenador do curso de especialização em segurança do trabalho da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), em 2010, o Ministério da Previdência Social registrou oficialmente 193 mortes de trabalhadores no Paraná. “Mas há muitos outros óbitos que não são notificados, principalmente no setor agrícola, que é muito forte na região. Isso acontece porque os trabalhadores não têm registro em carteira”, explica. Segundo o professor, a estatística oficial do Ministério é realizada a partir de dados fornecidos pelas empresas.
De acordo com Carlos Luciano, que também é vice-reitor da UEPG, a indústria responde por 44% dos acidentes de trabalho, mas esse ranking é liderado pelo setor de serviços, com 47%. Inclui-se nesse segmento a construção civil, na qual morreram 37 paranaenses em 2010. “Diariamente, 6,3 mil pessoas morrem vítimas de acidente de trabalho no mundo”, informa. Ocorrências no trajeto de ida e volta ao local do emprego também são considerados acidentes de trabalho e computados pelo Ministério da Previdência Social.
Para o professor, as empresas não se preocupam devidamente com o trabalhador. “É uma questão cultural. É válido dizer que as empresas se preocupam muito mais com outras coisas e expõem o trabalhador a riscos”, afirma.
Carlos Luciano revela um dado interessante: cerca de 1,2 mil empresas brasileiras têm a certificação da OHSAS (sigla inglesa que significa especificações de avaliação de saúde e segurança do trabalho), mas apenas 540 estão com esse certificado válido. “No Paraná, somente 11 empresas contam com a certificação. Em Ponta Grossa, só a Tetra Pak está com a Norma OHSAS válida”, afirma. Ou seja, explica o vice-reitor, as empresas chegaram a buscar a certificação, mas, depois deixaram de lado. A Norma OHSAS consiste em um sistema de gestão de segurança do trabalho que implica em auditorias constantes dentro das empresas. “Muitas atuam na exportação e alguns clientes só aceitam importar se houver garantia de cuidado do trabalhador”, conta.
A advogada trabalhista Crislaine Kubaski ressalta que as empresas são fiscalizadas pelo Ministério do Trabalho anualmente. O objetivo é verificar o cumprimento das determinações acerca da prevenção de acidentes. “Mas, várias delas, não respeitam essas determinações. Os acidentes acontecem tanto pelo descumprimento quanto por situações imprevisíveis”, explica.
Falta preocupação com saúde e segurança
Para a advogada Crislaine Kubaski, além das ações efetivas de prevenção a acidentes, como equipamentos, há outras medidas que podem ser tomadas pelos empregadores. “Muitos dos acidentes acontecem em razão da falta de cuidado com a saúde do trabalhador. Vemos que o cansaço pode levar a erro no desenvolvimento da atividade, assim como o estresse. Portanto, esse cuidado com o bem-estar poderia diminuir os acidentes ou torná-los menos graves”, analisa. “Segurança e saúde podem ser considerados pequenos detalhe, porém, se não forem observados, podem acarretar na morte do trabalhador”, destaca a advogada.
Vítimas são na maioria homens jovens
O professor Carlos Luciano Sant’Ana Vargas diz que os órgãos de fiscalização estão agindo sobre as empresas que desrespeitam o trabalhador. Segundo ele, no ano passado, 1,5 mil empresas brasileiras foram fechadas devido às péssimas condições de trabalho. “Muitas eram do setor agrícola”, afirma. Para ele, campanhas acerca da prevenção dos acidentes, a punição para os responsáveis e aplicação de multam ajudam a evitar os acidentes.
Carlos Luciano revela ainda o perfil do trabalhador que se envolve em acidentes. Os homens são 72% das vítimas e metade deles tem entre 20 e 30 anos de idade. “Logicamente que há muito mais homens trabalhando em serviços perigosos, mas hoje há várias mulheres também atuando. Elas, no entanto, são mais cuidadosas”. Os principais tipos de acidente são quedas, contato com máquinas e produtos perigosos e mãos e braços representam 40% das partes do corpo atingidas
http://www.diariodoscampos.com.br/policia/acidentes-de-trabalho-ja-mataram-14-pessoas-na-regiao-59335/